• "Às vezes é preciso se render ao fantástico, parar de buscar respostas ou conclusões. Às vezes devemos simplesmente deixar o mito e a lenda tomarem os seus lugares. É isso que conta. É isso que nos faz diferente..."

    JBAlves

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domingo, 23 de novembro de 2014

A boa senhora da casa ao lado.



As pessoas gostam de histórias. Algumas buscam escutar sobre dragões e princesas num distante mundo prateado, outras querem saber sobre o que aconteceu com os soldados japoneses e americanos durante a segunda guerra mundial.

No meu caso, eu sempre gostei daquelas histórias simples, contadas ao pé da fogueira durante a noite junto com os amigos tomando um chimarrão. Sabe,  daquelas histórias intimistas que mesmo pequenas ainda assim guardam segredos e mistérios que ninguém realmente compreende mas que todos admiram.

sábado, 22 de novembro de 2014

Finalizei o meu primeiro NaNoWriMo!



No dia 21 de outubro eu comecei a participar do NaNoWriMo ou National Novel Writing Month que é uma abordagem divertida, do tipo faça-você-mesmo de escrita criativa organizada pelo sindicato de escritores dos Estados Unidos.

Enfim, o desafio proposto era de escrever um romance de no mínimo 50.000 palavras em até 30 dias. Eu aceitei o desafio e iniciei um projeto totalmente novo durante meu período de férias.

Hoje, com muito orgulho, devo dizer que finalizei 52.000 palavras e fechei a versão inicial de meu mais novo projeto!

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Participe do NaNoWriMo você também!



Este ano gostaria de apresentar e convidar a todos os escritores a participar do NaNoWriMo!

NaNoWriMo? O que diabos é isso?
Vamos começar a escrever? Valendo!
Pois bem, deixe-me explicar. O NaNoWriMo ou National Novel Writing Month é uma abordagem divertida, do tipo faça-você-mesmo de escrita criativa organizado pelo sindicato de escritores dos Estados Unidos. Basicamente em 01 de novembro, os participantes começam a trabalhar em direção ao objetivo de escrever um romance de 50.000 palavras até as 23:59 do dia 30 de novembro.

É um projeto que valoriza o entusiasmo, a determinação e um prazo, NaNoWriMo é para quem nunca pensou em escrever um romance de forma fugaz.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Utopia. Contos fantásticos nacionais lançados pela editora Andross.


“Tudo o que o que estiver relacionado a fantasia, seja ela totalmente fora do que conhecemos ou que faça parte do realismo fantástico, será avaliado”, disse Alex Mir, o organizador do livro. “O que vale mesmo é a criatividade!”


Utopia é um livro de contos nacional de Fantasia, Ficção Científica e Terror. Nele você terá contato com alienígenas, mundos em colapso, fadas, bonecas de porcelana vivas, lutas contra dragões e demônios e muitos outros aspectos de um universo concebido por muitos como irracional. 

sábado, 7 de junho de 2014

Bebendo com o inimigo.


"Everybody dies, sooner or later. Don't worry about your death. Worry about your life. Take charge of your life for as long as it lasts." ―Petyr Baelish to Robin Arryn



                Joseran Mariac estava cansado. A fuga fora longa e fatigante, ele já não era tão jovem mas não tinha esquecido todos os truques. As janelas de seu quarto davam para a viela e para telhados, com uma vista do Água Negra por cima deles. Observou seu guia partir e caminhar a passos largos pelas ruas movimentadas até se perder na multidão, e depois decidiu descansar. O colchão de palha era adequado, então não teve dificuldade em adormecer.

                Acordou com um barulho vindo da porta.

                Sentou-se de repente. Da janela viam-se os telhados de Porto Real, vermelhos à luz do sol poente. Dormira durante todo o dia,  mais tempo do que planejara. Um punho voltou a martelar na porta e uma voz gritou: – Abra, em nome do rei.

                – Um momento – ele gritou. Envolveu-se no manto e conferiu o punhal preso em seu antebraço. Verificou a rota de fuga e escondeu o punhal de sua bota antes de destrancar a pesada porta de madeira.

                Os homens que entraram no quarto usavam a cota de malha negra e o manto dourado da Patrulha da Cidade. Seu líder sorriu ao ver o pequeno homem com os cabelos desgrenhados e disse: – Espero não tê-lo acordado, meu senhor. Temos ordens de escoltá-lo.

                – Sob autoridade de quem? – ele perguntou.

                – Lorde Baelish – disse ele. – Ele nos disse para levá-lo, e evitar que seja maltratado.

                Joseran assentiu. Não estava planejando revelar sua presença matando alguns patrulheiros. Ainda tinha algumas contas a acertar.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Caça ou caçador?



Sua respiração estava pesada apesar de seu esconderijo ser perfeito.

Foi nesse momento que o leão entrou na caverna. Ele perscrutou o ar atrás de algum cheiro. Seus pêlos amarelados refletiam um tom estranho junto com a grande juba laranja, seus músculos poderosos estavam tensos, era incomum um leão adulto sair em caçada, ainda mais se aventurar em lugares fechados como a caverna.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

CLARKESWORLD MAGAZINE: Um prazer para os olhos, um deleite para os ouvidos e uma inspiração para a alma.


Clarkesworld Magazine é uma revista de fantasia e ficção científica Norte Americana. A sua primeira edição foi publicada em outubro de 2006 e desde então eles tem mantido uma agenda mensal regular. A revista já reuniu diversos autores tais como Sarah Monette, Catherynne Valente, Elizabeth bear, Caitlin R. Kiernan, Kij Johnson, Peter Watts e Jeff VanderMeer e já foi ganhadora do prêmio HUGO de Ficção Científica e Fantasia.

domingo, 9 de março de 2014

Reflexões de um pensamento.



"O mito é o nada que é tudo
O mesmo sol que abre os céus
É um mito brilhante e mudo –
O corpo morto de Deus,
Vivo e desnudo.
Este que aqui aportou,
Foi por não ser existindo.
Sem existir nos braços.
Por não ter vindo foi vindo
E nos criou.
Assim a lenda se escorre
A entrar na realidade,
E a fecundá-la decorre
De nada, morre.

(Fernando Pessoa )


Um corpo pode ser reconhecido como um conjunto de várias partes que compõem um animal. Após a sua morte esse corpo é considerado um cadáver. O corpo humano, como o de outros mamíferos, é geralmente dividido em cabeça, tronco e membros.

Esse corpo, o meu corpo em especial, está deitado em uma fria mesa de metal no mais profundo e indistinto morgue da cidade. Morgue, ou necrotério, é o local onde são guardados os cadáveres e se realizam exames periciais visando determinar a “causa mortis” ou causa da morte.

Esse necrotério, pode ser encontrado no Continente das Américas, bem no sul do Brasil, em uma pequena cidade no norte do Paraná, na Rua Edgar Alan Poe número 1849. É um estabelecimento distinto e sem nenhum detalhe aparente, atendido e frequentado constantemente por médicos legistas, especialistas forenses, góticos ou simplesmente pessoas estranhas ao próprio estado da morte.

A Morte, óbito, falecimento ou simplesmente passamento são os termos que conheço para o término da vida de um organismo. A situação que ocorre para a transformação de um corpo em um cadáver.

Pode parecer estranho, e até mesmo mórbido essa minha análise. Isso se eu estivesse olhando um cadáver em uma mesa de ferro atrás de um balcão do necrotério. Mas na realidade, ou dentro de meus pensamentos, eu estou na realidade olhando para o meu corpo, o meu cadáver, do alto da sala desse mesmo necrotério.

domingo, 9 de junho de 2013

Anunciada a segunda edição do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira




A revista norte-americana Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show (IGMS) e os websites brasileiros A Bandeira do Elefante e da Arara e Universo Insônia se uniram mais uma vez para levar o melhor da ficção especulativa brasileira para os leitores de língua inglesa do mundo inteiro, através da segunda edição do Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira.


Um painel de juízes brasileiros selecionará três finalistas entre os contos de literatura fantástica publicados no Brasil em 2011 e 2012. Orson Scott Card, um dos autores mais vendidos do mundo da ficção especulativa e Edmund R. Schubert, editor da IGMS, vão escolher o vencedor entre os finalistas. Os três finalistas terão seus contos traduzidos para o inglês e o vencedor receberá publicação remunerada na revista Intergalactic Medicine Show.

domingo, 2 de dezembro de 2012

A última hora na vida de um velho Nerd.



Finalmente aconteceu. Não foi do jeito que eu imaginava, mas aconteceu. E agora, nem o protocolo Blue Hand, ou outras regras de sobrevivência que já li podem me salvar.

Nem mesmo em meus sonhos mais loucos ou nos livros mais estranhos de minha biblioteca eu pude imaginar que o dia terminaria do jeito que vai terminar.

É claro que Lovecraft e todo o seu Cthulhu Mythos ou mesmo Stephen King em todos os livros da Torre Negra sempre citaram sobre a possibilidade derradeira desse momento. Mas eu nunca imaginei que ele chegaria pra mim de maneira tão súbita.

sábado, 9 de junho de 2012

Lançamento DIMENSÕES.BR – VOLUME II




Lançamento em junho de novos autores nacionais, promovido pela Editora Andross.

“Criaturas lendárias, histórias mitológicas, seres fantásticos, contos folclóricos. Tudo isso numa terra insólita, onde o possível e o impossível se mesclam numa amálgama de magia. Nesse lugar, sereia é iara, e o sétimo filho se torna lobisomem. Desde Cabral – e, com certeza, também antes dele -as histórias sobrenaturais mais incríveis tiveram como cenário esta terra, que hoje chamamos de Brasil.” Fonte Dimensões.Br – Volume II é uma antologia de contos – sim, contos, que são uma ótima pedida quando se quer uma leitura rápida, fotográfica e instigante – com a proposta simples, mas fantástica – no dois sentidos da palavra – de falar sobre fantasia no nosso país.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Quando eles chegaram…

Muitos são os seres místicos que vagam pelas florestas e campinas do mundo. Mas raras são as oportunidades de conhecer sua origem. É importante dizer que mesmo os seres míticos têm uma origem e alguns desses seres guardam essa origem com tanto segredo que as vezes o passado parece esconder algo desonroso ou mesmo monstruoso. 

A medusa antes de ser um monstro, era uma princesa que tentou competir com uma deusa e terminou com uma maldição que transforma homens em estátuas.

Os ciclopes se escondem amuados em suas cavernas, chorando através de seu olho central enquanto relembram o passado em que sua raça tinha outro nome e olhava com profundidade o mundo através de seus dois olhos.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Conto baseado no universo do game STARCRAFT: O inimigo de meu inimigo...

Holo36 dançava alegremente pelas ruas de Tarr usando a imagem de uma atriz morta a mais de 200 anos que ele havia encontrado no antigo banco de dados da cidade. O soldado humano ao seu lado, normalmente silencioso e focado também estava um pouco distraído, tanto por causa do final das chuvas e início de um dos melhores períodos climáticos do planeta quanto pela diminuição dos ataques Zergs contra sua cidade. Holo36 era um holograma, construído com o que existia de mais avançado em inteligência artificial e holografia baseada na união da tecnologia humana e protoss, uma inteligência artificial experimental que seria usado para proteger os interesses e costumes dos seres humanos.

E, neste momento, muitos humanos precisavam de proteção. Mesmo com a destruição do Overmind e da maioria dos Cerebrates ainda aconteciam muitas escaramuças por todo aquele setor do espaço. 

Os Zergs eram abundantes, e sem um controle central para controlá-los eles vagavam por todos os lugares e até pior, o tumulto emocional dentro da cidade entre toda a sociedade humana juntamente com as discussões entre os militares, incluindo os antigos membros da UED que trocaram de lado, ameaçava destruir tudo aquilo que os refugiados tinham construído, tudo aquilo que os humanos haviam eregido em Tarr, a maior e pelo que sabiam, a última cidade remanescente do planeta.


quinta-feira, 8 de julho de 2010

Livro nacional faz releitura dos contos de fada



Aproveitando a matéria que saiu na Folha de SãoPaulo.Quero divulgar o trabalho do grande escritor Rafael Dracon.

Ele criou uma série na qual reúne alguns dos clássicos personagens de histórias infantis que todos conhecem, em uma releitura tanto de suas estórias, quanto de seu destino.

Através desse contexto ele faz uma releitura dos contos de fada e longe de ser uma série escrita para crianças, Dracon se utiliza dos personagens infantis, mas modifica algumas coisas em suas histórias, para contar sua história onde as histórias de todos, se relacionam em enredos que se cruzam.

"O livro nunca foi infantil, mas juvenil, até pela linguagem, trama, referências e metáforas. E esse dilema não existe exatamente porque os contos são abordados de um ponto de vista muito mais próximo dos violentos contos de fadas em suas versões originais, do que nas versões leves em que ficaram conhecidos", revela Dracon.

Segundo ele, a graça é mesmo o susto que os leitores levam quando vêem a história normalmente contada com teor infantil, de uma visão violenta ou melancólica. "Sem contar que eu sempre quis saber o que acontecia "depois" que o lobo era morto ou a princesa acordava; a série mexe com isso", conta Dracon.

O mundo onde todos eles vivem é Nova Ether, uma terra onde além dos conflitos sociais e humanos, os personagens ainda precisam combater a magia negra e onde as bruxas andam à solta.

Coisas estranhas acontecem em um mundo protegido por avatares

O primeiro livro, "Dragões de Éter: Caçadores de Bruxas", foi lançado pela editora Planeta e teve sua edição esgotada. Nele Dracon reconta as história de Chapeuzinho Vermelho, João e Maria e apresenta a Família Real Branford.

A sequência, "Dragões de Éter: Corações de Neve", foi editada pela Leya e mostra justamente o que aconteceu com estes personagens enquanto eles crescem. Chapeuzinho Vermelho, cujo nome aqui é Ariane Narin engata um namoro com João (cujo sobrenome é Hanson). Já Maria Hanson, mesmo sem sangue nobre arrebata o coração do príncipe Axel Branford.

Mas isso é só o início da história. Tem ainda um grande torneio de luta, que não deixa nada a desejar os campeonatos de vale tudo da UFC, no qual o príncipe Axel é grande favorito e ainda uma batalha pela liberdade de Sherwood, travada por um Robin de Locksley quase cinquentão.

Em todos os livros Dracon utiliza arquétipos como metáfora. "A saga na verdade é sobre sete jovens, em diferentes estágios da passagem da adolescência para a vida adulta, e sobre como acontecimentos externos incontroláveis e intensos podem acelerar essa transição", diz ele.

Ele explica que os contos de fadas lhe deram estes arquétipos, os quais ele aprofundou de acordo com as mensagens e reflexões que a história pedia.

"É sempre tão desafiador pegar um personagem conhecido e apresentá-lo de uma maneira que faça referência ao imaginário popular, mas ao mesmo tempo o apresente de uma maneira nova e seja um personagem origina", diz ele.

E em todos os livros existem espalhadas centenas de referências pops que moldaram o universo pessoal do autor e dos leitores. Ninguém estranhe, portanto reconhecer frases de Shakespeare, do Limp Bizkit; Nirvana; Che Guevara e vários outros ao longo da série.

"São centenas de coisas do tipo e a maioria passa despercebida porque tudo se fecha. E esse desafio que me fascina. Com certeza, é o mesmo fascínio que sentiu Neil Gaiman ao lhe darem o Sandman e a carta branca na DC Comics, ou Tarantino ao se sentar para escrever qualquer script de seu universo próprio", explica Dracon.

A caminhada dos personagens ainda prossegue em pelo menos mais um livro: Dragões de Éter - Círculos de Chuva, que deve ser lançado em agosto, também pela Leya.

Segundo o autor, haverá um lançamento durante a Bienal de SP, com algumas surpresas que andam sendo preparados para o evento. É aguardar para ver.

"Dragões de Éter: Corações de Neve"
Autor: Raphael Dracon
Editora: Leya
Páginas: 498
Quanto: R$ 44,90

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

A visita de um Teratoma.




Uma noite ela surgiu. Vinda de um buraco escondido na realidade de minha sala. De um reboco mal formado da parede por onde escapavam minhas felicidades. Era uma noite fria e chorosa. Daquelas que o vento sempre bate com força nossas janelas, fazendo-nos soluçar de susto.

Por um sibilo ela se apresentou, sábia e solitária, soturna e sanguinária essa gentil senhora disse palavras piedosas a meus ouvidos. Era ao mesmo tempo, lânguidas promessas e parcas oportunidades, belos sonhos e horríveis pesadelos.

Ela se apresentou como uma sobrevivente do século passado. Observadora e curiosa, esquiva e latente ela me revelou que seu segredo de longevidade era roubar da essência masculina dos que não nasceram. Gota a gota esse estranho elixir lhe preservava a vida, afastando-a da sanidade.

Sua solidão era palpável. Suas belas irmãs haviam à séculos se transformado em pó, e a única coisa que a permitia viver sem elas era o palpitar de seu coração cheio do pó de cada uma.

Antigamente ela era dependente das conquistas das irmãs, mas, com o passar das décadas elas envelheceram enquanto o teratoma manteve-se inalterado, talvez seja o que a medicina moderna chama de câncer, células imortais que tardam a deixar o corpo do qual vieram.

Ela, ao contrário de qualquer tumor benigno, se alojara entre suas velhas irmãs enquanto consumia os corpos deixados no crematório, cada pequena partícula de pó se unia a ela lhe permitindo agora caminhar sem a necessidade de sua tão antiga trigemialidade.

Agora, sua vida consistia em percorrer o mundo através das fendas abertas pela sociedade, pelas feridas das paredes, pelos buracos no vidro e pelas passagens do aço. Levando a seus “clientes”, a chance de elevarem seus nomes à monumentais caminhos.

Era isso que ela me prometia. Se lhe permitisse sugar de minhas sementes, ela me entregaria o periódico que sempre procurei escrever, me permitindo percorrer os caminhos onde poucos homens passaram, o caminho de ouro do reconhecimento mundial e do sucesso.

Um frenesi mundano abalava fundo meus ossos. Pois meus sonhos não são belos, nem honestos, como todo homem mundano sempre sonhei com conquistas e poder, com meus desejos sendo realizados enquanto vivo.

Mas, permitir que minha semente, minha esquiva parceria, errática e maculada fosse retirada de meu ser para embalá-la mais algumas décadas era mais que meu pobre estômago poderia resistir.

Vomitando meus medos no piso de minha sala eu tentava me controlar. Diferente de meu antecessor, ela não enviara uma misteriosa carta negra se apresentando. Sua presença fétida era nítida perante meus olhos. Acho que os anos lhe retiveram a vida mas não a paciência.

Ela precisava de minha ajuda e me prometia entregar o trabalho que nenhum lápis, pena ou caneta poderia escrever, me permitindo ladear os inesquecíveis exemplos literários de meu país e do mundo.

O buraco em que se estreitava quase não cabia seu corpanzil disforme, sua pele rala e esburacada escondia bem mais que deformidades humanas, ela na realidade, revelava nosso interior, a verdadeira face do homem sem seu verniz de pretensa humanidade.

Ela insistiu, me pedindo para beber do elixir vital. Me olhando com órbitas fundas e vazias ele me sibilou todos os sucessos que alcançaria minha medíocre realidade.

Continuando nessa ladainha interminável minha consciência foi se apagando, nesse momento concordei com o desígnio do Teratoma e abracei a criação literária desta como um náufrago abraça o último pedaço do navio.

Então afundei...

Minha vida, ou parte dela, me foi sugada enquanto sonhos insanos se agitavam e grunhiam. Senti-me desfalecer e quando recobrei o juízo a solitária senhora havia partido.

Em cima de minha mesa ela havia deixado uma pequena carta junto com uma estranha rosa negra. Segundo sua carta ela mesmo havia cultivado nos recônditos túneis do subsolo aquela rara mutação.

Seu perfume me lembrava uma época passada, habitada por cavalheiros e damas, meretrizes e assassinos. Uma época que meu coração gostaria de habitar e meus sonhos desejam conhecer. A época onde nasceu as gêmeas siamesas que um dia iriam se tornar belas damas rameiras e um aborto cancerígeno.

Agora que ela se foi posso me deleitar por seus estranhos trabalhos, realmente seu pagamento por minha semente valeriam a pena se não tivesse tanta consciência do que fiz.

Não posso me permitir existir numa realidade que não é minha conquista. Me aproveitar da existência daquilo é me sujeitar a seu próprio nível. E venhamos a ser sinceros. Ladrão de vida é algo que poderia suportar, mas nunca me permitiria ser ladrão de idéias, algo tão incomensurável para um verdadeiro escritor quanto sua própria derrota, pois suas palavras são mutáveis como o tempo.

Sendo assim, acredito que não precisarei da ajuda de um teratoma para alcançar meus objetivos. Pois já possuo meu próprio câncer pessoal, a imaginação insensata em minha consciência.

Essa sim me incomoda noites a fio, sempre levando partes de minha vida, sempre me consumindo e me guiando, só permitindo a realidade do tamanho do universo, nada tão pequeno quanto os sonhos dos homens.

- Inspirado na obra: As Piedosas de Frederico Andahazi.-

“Perante a chuva que caia ele rogava o final dessa história, pois é dela o final, são as lágrimas do futuro defunto que caem sobre o cadáver do antigo...“